25.3.10

AS ARCAS DE MONTEMOR













Um poema teimoso e uma mente conservadora. O problema é que a mente em questão conserva o que podia deixar sair o que pouco interesse tem nesta fase de vida, e conservar o que agora poderia dar prazer lembrar, como... um certo bilhetinho branco (um segredo quase só meu), decorridos que são anos e anos de primaveras, verões, outonos e invernos.

Um simples exemplo: matrículas de automóveis que fizeram parte da minha vida...lembro-as todas desde criança. Um espaço ocupado sem qualquer interesse. Porém, uma há que tenho uma certa vaidade em lembrar. Decorriam os anos 30 e, o Austin beije com uma escadinha para se poder entrar, era MN-55-28!!!

Mas, vamos ao poema em título, que devo ter lido uma só vez, naquela fase da infância em que a mente tem ainda muito espaço para ocupar. Poema esse que, assentou arraiais, e nunca mais me abandonou. Às vezes recito-o, mas só para ver se ainda cá está, e está!

***AS ARCAS DE MONTEMOR***

ENTRE ESCOMBROS, NA RUDEZA DA VETUSTA FORTALEZA,
BATIDAS PELO VENTO AGRESTE,
EMPEDERNIDAS, CERRADAS, HÁ DUAS ARCAS PEJADAS,
UMA DE OIRO, OUTRA DE PESTE.

NINGUÉM SABE AO CERTO
QUAL DAS DUAS ARCAS ENCERRA
O FECUNDO MANANCIAL
QUE FARTARÁ DE OIRO A TERRA MESQUINHA DE PORTUGAL,
OU QUAL, SE MÃO IMPRUDENTE, LHE ERGUER A TAMPA FUNÉRIA
VOMITARÁ, DE REPENTE, A FOME, A FEBRE E A MISÉRIA
QUE MATARÃO TODA A GENTE.

E NESTAS PERPLEXIDADES
E ETERNAS HESITAÇÕES,
TÊM DECORRIDO AS IDADES
TÊM PASSADOS AS GERAÇÕES,
SEM QUE ROMANOS NEM GODOS
NEM ÁRABES NEM CRISTÃOS,
RUDES NA ALMA E NOS MODOS,
DUROS NO ASPECTO E NO TRATO,
CHEGUEM AO DESACATO,
DE LHES TOCAR COM AS MÃOS

QUEDOU-SE...OS BRAÇOS ERGUIDOS,
O OLHAR ATÓNITO E ERRANTE,
SEM SABER DE QUE LADO
VINHA MORRER-LHE AOS OUVIDOS,
UMA VOZ AGONIZANTE, ENTRE AMEAÇAS E GEMIDOS...

Ó POVO DE MONTEMOR...
SE ESTÁS MAL...
SE ÉS DESGRAÇADO...
SUSPENDE...
TOMA CUIDADO...
QUE PODES FICAR PIOR...

E, NESTAS PERPLEXIDADES
E ETERNAS HESITAÇÕES,
HÃO-DE PASSAR AS IDADES,
DECORRER AS GERAÇÕES,
SEM QUE ROMANOS NEM GODOS,
NEM ÁRABES NEM CRISTÃOS,
RUDES NA ALMA E NOS MODOS,
DUROS NO ASPECTO E NO TRATO,
CHEGUEM AO DESACATO
DE LHES TOCAR COM AS MÃOS...

MARA
(dito de cor)

***

9 comentários:

A. João Soares disse...

Querida Amiga Mara,

História antiga dos tempos dos duros no trato, mas que encerra uma lição pela qual muita gente passa sem dela se aperceber. Há uma interrogação na forma como decidir que arca se pode abrir. Esta é a lição. Toda a decisão é uma escolha entre duas ou mais soluções possíveis. Todas elas têm vantagens e inconvenientes em graus e proporções diferentes.
Qual escolher? No caso da história: que arca abrir?

Mas na vida prática nada se apresenta com efeitos tão radicais, tão extremados, mas na vida é preciso tomar decisões, é preciso no cruzamento decidir para que lado se vira.

Nesse sentido e porque muita gente com responsabilidades decide sem meditar, sem avaliar os potenciais efeitos, e sem procurar prever os resultados, publiquei um pequeno texto com o título Pensar antes de decidir.

E, com a total falta de dados sobre as arcas de Montemor, por mim deixo que continuem fechadas...

Beijos
João

VANUZA PANTALEÃO disse...

Quantos poemas Mara sabe de cor?
Muitos, muitos, todos...
Venho ver tuas pinturas um dia desses. Falando nisso, Van Gogh - você o conhece bem - a espera por lá...
Tentei fazer algo diferente, será que ficou bom?

Carinhos para Mara/Milai!!!

Graça Paz disse...

Absolutamente excepcional este teu Post!Parabens!muitos*

Manuel disse...

Este belo poema, julgo que do Conde Monsaraz, que ilustra bem um certo tom enigmático do texto.
Sabe? Eu também tenho na mente todas as matriculas de carros, e ás vezes esqueço coisas que não devia.
Que fazer?

Manuel disse...

Voltei para dizer que tem umas pinturas magnificas.
Adorei.
Parabéns.

MARA disse...

Queridíssima Vanuza,

Já soube mtos poemas mas só este ficou, vamos lá saber porquê. Querida Amiga, torce por mim porque já tenho marcada uma Exposição para expôr as minhas belezas "coitadinhas". Até as pernas me vão tremer quando vir olhos a apontar para elas, as coitadinhas!
Fizeste uma pintura de Van Gogh, foi. Vou ver no teu blog. És especial!

Apanhei os carinhos.Obrigada amiga.

Mara / Milai

Alvaro Oliveira disse...

Olá Amiga MARA

Beleza impera nesta postagem.
Adorei!

Amiga, tem um selinho para si em meu blog, no cimo da barra lateral.
Me conceda a honra da sua visita, para o receber.

Beijinhos

Alvaro

MARA disse...

Obrigada Manuel,

A frase "Pinturas Magnificas" fez-me muito bem. Tenho a minha exposição já marcada. Se vivesses no Porto, enviava-te um convite.

Beijinhos
Mara

MARA disse...

Querido Amigo,

Já tenho o selo das 6000 visitas (espantoso) e agradeço o comentário ao meu blog tão simpático.

Beijinhos

Mara